Um conto de Clarice e Lins

Um conto de Clarice e Lins

20 de maio de 2021

Num dia de domingo a gente saiu para correr no parque, não assim igual aos adultos – que colocam fones de ouvido, ligam o GPS no relógio digital, usam braçadeiras e vão travestidos de umas “roupas de academia” que mais parecem uma armadura – a gente foi correr igual as pessoas do nosso tamanho fazem, sem direção ou sentindo, sem cultivar o desejo de gastar calorias, e sim, querendo gastar energia, sorrisos e afeto, entre a gente e com a natureza. Nossos pais olhavam a gente de longe, enquanto nos permitiam ser aquilo que eles não se permitem ser faz tempo, um pouco mais crianças.

Enquanto eu, por alguns segundos, os olhava de volta, eu perguntei ao Lins: – Será que um dia a gente vai se perder assim?

Entre uma corrida e outra e batidas de pique-esconde na árvore central do parque, já perdido, meu irmão 2 anos mais velho, me olhou fixamente e franziu a testa, esmagando os olhos apertados (bem assim, como as pessoas grandes fazem) e, depois de alguns segundos, murmurou: – Que você quer dizer com isso Lice? (Assim fui apelidada por ele quando nasci, porque não sabia pronunciar Clarice).

 –  Ah, eu às vezes penso que as pessoas grandes são tão complicadas. A mamãe é cientista sabe, isso é o que os papéis bonitos do trabalho dela dizem, mas raramente eu vejo a mamãe falar com orgulho que é cientista. Eu acho que ela acha que as pessoas vão pensar que ela é maluca, que ela é fora da casinha, ou talvez até chata. Tipo assim, água e óleo sabe? Ela às vezes tenta se passar por água, porque ela quer se misturar.

– Que engraçado né, Lice? Eu não acho a mãe nada disso. Ela é divertida, tem sempre umas ideias de brincadeiras legais, e sempre deixa a gente inventar nossas aventuras. Eu queria que as pessoas grandes fossem mais como a mãe. Por que as outras pessoas não podem virar óleo para se misturar com ela?

–  Olha Lins, eu não sei! Eu sei é que a mamãe vive dizendo que a gente está vivendo tempos sombrios. Eu não sei muito bem o que ela quer dizer com isso, mas eu sinto uma dor na voz dela, quando ela fala essas coisas pro papai. Eu tenho medo de não poder mais brincar no parque. Acho que sombrio quer dizer que a gente não sabe o que vai acontecer.

– Se sombrio quer dizer isso Lice, eu acho que estamos sombrios.


 

A ciência e a sociedade estão desconexas. A sociedade não entende a ciência e não se relaciona com ela. Os seres humanos estão primordialmente preocupados em obter respostas, mas raríssimos são os casos dos que desejam entender como são feitas as perguntas. Absolutamente todas as tecnologias que usamos e avanços médicos que obtivemos, são fruto de anos de estudo e pesquisa científica. Não, o cientista não é somente aquele cara “tipo Einstein”, de cabelo arrepiado, malucão, antissocial, que vive com o nariz enfiado no livro e a cabeça no mundo da lua. A cientista sou eu que gosta de dançar, cantar, escrever, correr, surfar, pedalar, jogar futebol, cozinhar, estar com os amigos no bar, na balada, numa festinha. As cientistas são minhas amigas que são mães, que criam os filhos, fazem a gestão da casa, publicam artigos e adoram sair para ser divertir. Os cientistas são meus amigos que curtem rock, que jogam tênis, que jogam frescobol e que adoram uma cervejinha. Nós somos como qualquer outra pessoa. Talvez nós sejamos assim mais crianças, porque ser criança é ser cientista, é idealizar, inventar, perguntar, testar e explicar as sua ideias, às vezes com muita dificuldade, para que as pessoas grandes possam entender.

O que nos dá sentido nesse mundo é a conexão, ninguém consegue se sentir vivo e feliz, sem se sentir conectado, com alguém ou algo. A frase célebre de meu pai: – O mundo é feito de conexões, nunca fez tanto sentido.

Nos falta esse senso de conexão, com a ciência e com o outro, de modo geral. Esse elo perdido, em que vivenciamos uma sociedade na qual dependemos do outro para sobreviver (em todos os graus, desde onde moramos, até o que comemos, passando por como nos divertimos, como nos cuidamos, como produzimos nosso lixo e por fim, até quando partimos), e mesmo nessa vida de extrema dependência do outro e dos recursos dessa planeta, de certa forma nós fingimos que não vemos. Fechamos os olhos para o outro e para o que é alheio. Somos indivíduos e, portanto, mais importantes, e tomamos decisões egoístas.

Eu não vou me vacinar, é uma escolha minha – diz o indivíduo que parece que vive sozinho e não precisa de mais ninguém para viver e suprir as suas necessidades. E se essa vacina causar efeitos tardios? – diz o indivíduo que come e usa coisas que não sabe o que tem dentro, não sabe como os alimentos foram fabricados e processados, usa cosméticos e produtos sem saber a formulação, o que eles contem e o que cada um daqueles químicos pode lhe fazer ao longo prazo. Foi muito rápido – diz o indivíduo imediatista, que quer as coisas “pra ontem”, o relatório para amanhã, quitar o carro o mais rápido possível, ter o celular de última geração na mão assim que lançar. As hipocrisias das pessoas grandes. 

Vulnerabilidade é a palavra de ordem, assumir que somos imperfeitos e tentar melhorar ao longo da nossa jornada. E também, por praticar a vulnerabilidade e reconhecer as próprias limitações, tentar com mais frequência se colocar no lugar do outro. É empatia que fala, né? Coisas que as crianças sabem fazer muito bem, até serem moldadas pelos orgulhos, decepções e medos das pessoas grandes. Que sejamos todos mais cientistas, quero dizer, que sejamos todos mais crianças.

Maíra Assunção Bicca
Maíra Assunção Bicca

Farmacologista e Neurocientista
Pós-doutorado em Imunofarmacologia (UFSC - 2016) e em Neurobiologia (Northwestern University - 2017-2019)
Research Fellow no Neurosurgery Pain Research Institute - Departamento de Neurocirurgia e Neurociência da Johns Hopkins School of Medicine.