Remdesivir: aprovado!

Remdesivir: aprovado!

30 de março de 2021

A terapia farmacológica da COVID-19 baseia-se nos processos principais envolvidos com a doença: (1) alta replicação do vírus e (2) resposta imune/inflamatória exagerada.

Nenhum medicamento para o tratamento da COVID-19 ainda havia sido aprovado pela ANVISA até o dia 12 de março de 2021, quando aprovou o uso do remdesivir em ambiente hospitalar, para pacientes com quadro de pneumonia e que precisem de suplementação de oxigênio, quando maiores de 12 anos e com pelo menos 40 kg.

Estrutura química do remdesivir.

O remdesivir é um pró-fármaco nucleotídico análogo da adenosina. Atua ligando-se à RNA polimerase dependente de RNA viral, inibindo a replicação viral por meio do término prematuro da transcrição do RNA. O medicamento foi desenvolvido em 2017 com foco para o tratamento do Ebola e, posteriormente, testado para a síndrome respiratória do Oriente Médio. Teve seu uso aprovado para o tratamento da COVID-19 pelo FDA (órgão regulador americano) em 22 de outubro de 2020.

Mecanismo de ação do remdesivir. Imagem: Malin JJ, Suárez I, Priesner V, Fätkenheuer G, Rybniker J. 2021. Remdesivir against COVID-19 and other viral diseases. Clin Microbiol Rev 34:e00162-20. https://doi.org/10 .1128/CMR.00162-20.

Os ensaios clínicos realizados até o momento não revelaram diferenças significativas entre os pacientes tratados com esse medicamento e os pacientes de grupo placebo para desfechos como redução de carga viral, tempo de recuperação clínica e mortalidade. Ao mesmo tempo, também não demonstraram eventos adversos relevantes. As recomendações quanto ao uso do remdesivir é conflitante entre as agências internacionais. A própria Organização Mundial da Saúde não recomenda o seu uso por falta de evidências expressivas.

Os estudo desenvolvidos pela OMS e pela ANVISA, no entanto, diferem em alguns aspectos. Por exemplo, a OMS considerou em sua avaliação a diminuição da taxa de mortalidade, enquanto a ANVISA observou a diminuição do tempo de internamento (de 15 para 10 dias). No contexto atual do nosso país, a liberação de leitos mais rapidamente é uma contribuição importante para o sistema de saúde. O que podemos concluir com segurança é de que mais estudos são necessários para um melhor entendimento da eficácia desse fármaco no contexto da COVID-19.

Vale destacar que não se trata de um medicamento disponível em farmácias, sendo inclusive de alto custo. Assim, não se pode afirmar que o remdesivir é a cura para a COVID-19, mas sim, mais uma ferramenta para o arsenal dos profissionais da linha de frente em meio a essa guerra.

Referências: (1) Indari O, Jakhmola S, Manivannan E and Jha HC (2021) An Update on Antiviral Therapy Against SARS-CoV2: How Far Have We Come?. Front. Pharmacol. 12:632677. doi: 10.3389/fphar.2021.632677. (2) Malin JJ, Suárez I, Priesner V, Fätkenheuer G, Rybniker J. 2021. Remdesivir against COVID-19 and other viral diseases. Clin Microbiol Rev 34:e00162-20. https://doi.org/10 .1128/CMR.00162-20. (3) Goran Kokic, Hauke S. Hillen, Dimitry Tegunov, Christian Dienemann, Florian Seitz, Jana Schmitzova , Lucas Farnung, Aaron Siewert, Claudia Höbartner & Patrick Cramer. Mechanism of SARS-CoV-2 polymerase stalling by remdesivir. Nature Communications (2021) 12:279. https://doi.org/10.1038/s41467-020-20542-0.

Jaqueline Carneiro
Jaqueline Carneiro
PhD | Cientista

Farmacêutica, pesquisadora, professora, e co-fundadora do Rigor Científico, encontrou na ciência um lugar no qual aplicar a determinação aprendida com os esportes. A beleza e a complexidade da Química Medicinal a fizeram seguir por esse caminho, que a levou até laboratórios de pesquisa e outros lugares do mundo. Ser professora era visto como um efeito colateral, até pisar numa sala de aula. Naquele instante, mais madura pessoalmente e profissionalmente, percebeu possibilidades de impactar vidas diretamente. Hoje sonha alto e quer trazer mais pessoas para o seu mundo de ciência.