O manejo do estresse através do mindfulness na doença de Parkinson

O manejo do estresse através do mindfulness na doença de Parkinson

29 de março de 2021

Foi em 1817 que o médico inglês James Parkinson escreveu o primeiro estudo sobre pacientes com a doença de Parkinson, que inicialmente chamava-se Paralisia agitante. Nesse estudo batizado de "Ensaio sobre a paralisia agitante", James Parkinson relatou  o caso de 6 pacientes com sintomas motores parecidos, e sem nenhum comprometimento cognitivo ou emocional.

Jame Parkinson (TEIVE, MUNHOZ e LEES, 2016).

Capa do Ensaio sobre a Paralisia Agitante (TEIVE, MUNHOZ e LEES, 2016).

Alguns anos mais tarde, Jean Martin Charcot, revisitando os estudos de James Parkinson e atendendo pacientes com os mesmos sintomas, batizou a doença em homenagem ao médico que primeiramente a descreveu como doença de Parkinson (DP). Charcot fez ainda outras duas contribuições valiosíssimas a respeito da doença. Ele observou que haviam sim sintomas emocionais e cognitivos nos pacientes, além de ter feito a primeira prescrição medicamentosa a um paciente com a doença - alcaloides da Atropa belladona (com conhecidas propriedades anti-colinérgicas).

A DP é uma doença neurodegenerativa caracterizada pela perda progressiva de neurônios dopaminérgicos na via nigroestriatal, resultando em níveis reduzidos de dopamina. Esse mecanismo fisiopatológico leva ao aparecimento dos clássicos sinais motores da doença: bradicinesia, tremor de repouso e rigidez muscular. Porém, além dos sintomas motores, diversos outros sintomas não-motores também afetam os pacientes parkinsonianos, como ansiedade, depressão, apatia, desordens do sono e prejuízos cognitivos.

Diversos estudos apontam que existe uma conexão entre a exposição a eventos estressantes, seja aguda ou cronicamente, com a etiologia da DP. O estresse agudo envolve uma reação fisiológica em resposta a uma ameaça, na tentativa de recuperar o equilíbrio do organismo. Na DP episódios de estresse agudo podem piorar os sintomas motores e reduzir o efeito dos medicamentos antiparkinsonianos. No estresse crônico, a estimulação constante de mecanismos do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA) provoca um desequilíbrio do organismo, aumentando a chance para o desenvolvimento de depressão e ansiedade. Estudos demonstraram que a prevalência de depressão associada à DP é maior em pacientes com níveis elevados de cortisol (hormônio do estresse).

Efeitos do estresse na doença de Parkinson - A mudança que os pacientes percebem nos sintomas da doença de Parkinson durante o estresse (van der Heide et al., 2021).

Um grupo de pesquisa analisou 358 pacientes com a DP e demonstrou que durante a pandemia da COVID-19 aqueles que passaram por situações mais estressantes apresentavam uma piora nos sintomas motores e não-motores da doença (van der Heide et al., 2021). O estresse crônico pode também acelerar a progressão da DP, demonstrado através do estudo em modelos animais de estresse crônico uma intensa e acelerada morte de neurônios dopaminérgicos, além de aumentar a incidência de alfasinucleinopatia.

O grupo de pesquisa coordenado por Rick Helmich estou o impacto do mindfulness em pacientes com a DP. Mindfulness é definida como a técnica da atenção plena sem julgamentos. A aplicação da técnica mindfulness em outras doenças crônicas como transtornos mentais, dor crônica e doença vascular, demonstrou reduzir com sucesso a angústia e ansiedade, além de melhorar vários outros sintomas da doença. Kwok e colaboradores realizaram em 2019 um estudo clínico em pacientes parkinsonianos e demonstraram que o mindfulness mais a prática de yoga, por pelo menos 8 semanas, é capaz de melhorar tanto sintomas motores como não-motores da doença (Kwok et al., 2019).

Efeito do mindfulness em pacientes com a doença de Parkinson (van der Heide et al., 2021).

Os pesquisadores enviaram um questionário para 28 385 pacientes com a DP, e 11 413 indivíduos saudáveis. O questionário incluía perguntas específicas sobre a influência do estresse nos sintomas da DP, uso de métodos redutores de estresse e várias escalas validadas medindo estresse percebido, ansiedade e autocompaixão. Ao todo, 5 000 pacientes com a DP e 1 292 pacientes do grupo controle responderam ao questionário. Os pacientes com a DP relataram mais situações de estresse do que o grupo controle. Além disso, eles mencionaram que o estresse piora tanto os sintomas não-motores como os sintomas motores, principalmente o tremor de repouso. 83,1% desses pacientes relataram praticar exercício para reduzir o estresse, e 38,7% praticavam mindfulness. Esses pacientes adeptos da mindfulness relataram melhorias nos sintomas motores e não-motores da doença.

Os autores então concluíram que, a técnica mindfulness melhora a severidade dos sintomas da DP, principalmente a ansiedade e depressão. Por esses resultados, é possível estimular estudos futuros para estabelecer os méritos do mindfulness e outras intervenções de alívio do estresse.



REFERÊNCIAS:

Kwok, J. Y. Y., et al. Effects of mindfulness yoga vs stretching and resistance training exercises on anxiety and depression for people with Parkinson disease: a randomized clinical trial. JAMA Neurology, 2019.

Teive, H. A. G.; Munhoz, R. P.; Lees, A. J. Parkinson’s disease – 200 years: the outstanding contribution of “Old Hubert”. Arquivos de Neuro-Psiquiatria, 2017.

van der Heide, A.; Speckens, A. E. M.; Meinders, M. J., et al. Stress and mindfulness in Parkinson’s disease – a survey in 5000 patients. Nature Parkinon's disease, 2021.

Marissa Schamne
Marissa Schamne
PhD | Cientista

Pesquisadora e professora universitária, farmacêutica por formação. Despertou o interesse pela pesquisa durante a faculdade na Iniciação Científica, que obviamente foi na área da neuropsicofarmacologia. Concluída a graduação, segue o caminho da carreira acadêmica e pesquisa até a co-fundação do Rigor Científico – onde encontrou uma maneira de expressar todo seu amor pela Ciência, e vislumbra a possibilidade de levar essas informações ao maior número possível de pessoas. Era uma pessoa tímida que conforme foi se inserindo no meio acadêmico encontrou uma forma de libertar-se dessa timidez, e agora matraqueia sem parar. Apaixonada pela natureza, esportes ao ar livre e a sensação de liberdade que isso traz. Gosta de viajar pelo mundo, seja através dos livros que lê ou das viagens que faz. Almeja alçar vôos mais altos divulgando ciência por aí.