Receptor GABA e seu papel inibitório

Receptor GABA e seu papel inibitório

30 de março de 2023

O GABA (ácido gama-aminobutírico) é o principal neurotransmissor inibitório do Sistema Nervoso Central, desempenhando uma função regulatória importante na redução da atividade de diversos neurônios localizados na amígdala e em regiões corticais, do estriado e do tálamo.
Existem três tipos principais de receptores GABA e diversos suptipos. Os principais são GABA-A, GABA-B e GABA-C. Enquanto os receptores GABA-A e GABA-C são canais iônicos permeáveis ao cloreto e controlados por ligantes, o receptor GABA-B é metabotrópico (acoplado a uma proteína G).

Vários subtipos de receptores GABA-A são alvos de benzodiazepínicos (BZD), hipnóticos, sedativos, barbitúricos e álcool. Existem muitos subtipos diferentes dos receptores GABA-A, dependendo das subunidades presentes. Essas isoformas podem ser do tipo α (com seis isoformas, α1 a α6), β (com três isoformas, β1, β2 e β3), γ (também com três isoformas, γ1, γ2 e γ3), δ, ε, π, θ e ρ (com três isoformas, ρ1, ρ2 e ρ3). Dependendo das subunidades presentes, as funções de um receptor GABA-A podem variar significativamente.
Dentre os receptores GABA-A, existem aqueles que são sensíveis aos BZD e os que não são. Os receptores GABA-A insensíveis aos BZD são os que apresentam as subunidades α4, α6,  γ1 ou  δ.  Esses receptores ligam-se a neuromoduladores de ocorrência natural como os neuroesteroides, ao álcool e a alguns anestésicos gerais. O local de ligação desses neuromoduladores é diferente do local de ligação do próprio GABA, por isso, costuma-se chamar essas substâncias moduladores alostéricos (que se ligam em “outro local”).
 

Para que um receptor GABA-A seja alvo de um fármaco BZD, são necessárias duas subunidades β e uma subnidade γ (seja γ2 ou γ3), bem como duas subunidades α (α1, α2 ou α3). Os receptores GABA-A sensíveis aos BZD com a subunidade α1 são os mais importantes na regulação do sono e constituem os supostos alvos de fármacos sedativos-hipnóticos, como os próprios BZD e os moduladores alostéricos não-benzodiazepínicos do receptor GABA-A.
Os fármacos hipnóticos também atuam nos receptores GABA-A. São o que na farmacologia se chama de moduladores alostéricos positivos da ação do GABA, ou seja, significa que eles intensificam a ação do GABA.
Nem todos os moduladores alostéricos positivos são iguais, pois a maneira que os fármacos se ligam aos receptores GABA-A é variada, afetando perfil de segurança e eficácia dessas substâncias. Fármacos como o zolpidem, zaleplona e zopiclona (as Z-drugs) ligam-se ao receptor GABA-A mas não provocam o alto grau de tolerância, dependência e abstinência que os BZD. Acredita-se que os BZD influenciem no perfil de tolerância e dependência por modificarem a conformação do receptor GABA-A.
 
A subunidade α1 é reconhecidamente importante para a geração de sedação, portanto, ela é o alvo de todos os fármacos moduladores alostéricos positivos do receptor GABA-A, alvo de todas as Z-drugs, pois eles possuem especificidade para essa subunidade do receptor GABA-A. A importância funcional dessa seletividade para α1 ainda não está comprovada, mas acredita-se que seja ela que contribua para o menor risco de tolerância e dependência desses fármacos em comparação com os BZD.

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Marissa G. Schamne
Marissa G. Schamne
PhD | Cientista

Pesquisadora e professora universitária, farmacêutica por formação. Despertou o interesse pela pesquisa durante a faculdade na Iniciação Científica, que obviamente foi na área da neuropsicofarmacologia. Concluída a graduação, segue o caminho da carreira acadêmica e pesquisa até a co-fundação do Rigor Científico – onde encontrou uma maneira de expressar todo seu amor pela Ciência, e vislumbra a possibilidade de levar essas informações ao maior número possível de pessoas. Era uma pessoa tímida que conforme foi se inserindo no meio acadêmico encontrou uma forma de libertar-se dessa timidez, e agora matraqueia sem parar. Apaixonada pela natureza, esportes ao ar livre e a sensação de liberdade que isso traz. Gosta de viajar pelo mundo, seja através dos livros que lê ou das viagens que faz. Almeja alçar vôos mais altos divulgando ciência por aí.

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