Motive a ação...

Motive a ação...

12 de maio de 2022

- Lins, hoje eu quero fazer vários nadas, é dia de ficar em casa né? Tem mais um né? Hoje é..., como é mesmo o nome?

- Hoje é Domingo, Lice. Dia de descansar, de acordo com a mamãe.

- Eu queria descansar a semana toda, não pode?

- Ia ser maneiro mesmo Lice, quem foi que inventou isso né, de descansar só dois dias. Amanhã de manhã a gente já vai pra escola.

- Ah, eu amo ir para a escola, mas eu também amo a minha casinha Lins, como faz?

- Acho que a gente faz igual a mamãe Lice, aproveita cada minuto do dia, como ela mesma diz.

- Então ‘bora’, vamos pular dessa cama!!!


Rebeca observa as crianças o dia todo, é brincadeira de almofada, lego, videogame, uma pausa para leitura, fazem um lanchinho, brincam de esconde-esconde, desenham e pintam, decoram os desenhos com figurinhas, fazem uma cabaninha com os cobertores que trouxeram do quarto: correndo no corredor como se fossem fantasmas. Enquanto desfruta do seu chá de camomila, esperando o forno terminar de assar o bolo de banana, reflete: “Como eu queria ter a disposição das crianças”.

Como queríamos ter mais disposição? Não é mesmo? Comer bem, dormir direito, beber água, ser produtivo no trabalho, meditar, fazer exercício físico, cuidar das crianças, cozinhar, limpar a casa, se divertir, lavar a roupa, lavara a louça, cuidar da pele e do cabelo, fazer a barba, sair com os amigos, ler um livro, ouvir um podcast, mandar mensagem para os amigos, resolver os pepinos, fazer lista de compras, viajar, acompanhar as redes sociais, ir ao mercado, postar nas redes sociais, fazer as tarefas do trabalho, fazer a tarefa com as crianças, fazer sexo, pagar as contas, estudar, fazer terapia. Só de digitar estou cansada, como faz para dar conta de tudo? Talvez essa seja a pergunta que eu mais ouço. Como faz para ter essa energia?


Não é novidade para ninguém que a nossa rotina tem ficado cada vez mais acelerada e que a demanda de coisas que “precisamos fazer” para viver bem no mundo moderno parece que vai aumentando a cada década que nós atravessamos. É muito fácil eu gritar aos quatro ventos, que a questão é priorizar, porque sim é, mas temos que observar as camadas de privilégios que fazer todas essas coisas envolvem. Uma mãe/pai solo, não terá o mesmo tempo disponível que uma família com uma rede de apoio que auxilie no cuidado da criança. Um jovem com acesso a comida e internet em casa não terá o mesmo tempo disponível que um jovem que vive na periferia e não sabe ao certo qual será sua próxima refeição. Um adulto com um carro em uma cidade de pouca estrutura de transporte público terá um tempo disponível diferente de um adulto dependente do ônibus ou da condução. Primeiro de tudo, reconheça os seus privilégios. Todos nós temos, em maior ou menor grau, e eles nos mantêm no topo das nossas prioridades. Eu quero dizer que priorizar é mais fácil quando temos vários privilégios somados. A discussão aqui não é de classe, política, ou econômica, essa é uma coluna sobre saúde, e portanto é bom sempre relembrar, que a saúde física e mental passa pelo acesso que temos às coisas que necessitamos.

Vamos focar no ponto em questão, que é a MOTIVAÇÃO. Essa palavrinha que cerca nossas preocupações diariamente. Afinal, tem dia que acordamos motivados e tem dia que não queremos sair da cama. O que muda? Como fazemos para nos sentir motivados com mais frequência, ou para manter a motivação constante? Como faz para fugir do efeito montanha-russa? Um hora estamos no topo e quando menos esperamos caímos praticamente quase que em queda livre. É uma discussão sensível, e eu não estou aqui para ditar ou dar receitas de sucesso, não sou coach, e nem pretendo. Esse texto é para que reflitamos no nosso dia-a-dia e nas nossas motivações diárias. O objetivo aqui é fazer você pensar em você, e como você se reflete na sociedade, e por último como a sociedade reflete em você.

A frase clichê número 1: Se você não fizer, ninguém vai fazer por você!  Você é o agente da mudança do seu mundo. Se está ruim, você tem que fazer força para mudar. Se pode ficar melhor, você que tem que dar o gás para subir de nível. As coisas não vão acontecer por si. Com todo respeito ao Zeca Pagodinho, às vezes a gente precisa deixar a vida levar, mas com cautela para não achar que as coisas vão acontecer como deveriam e nós não precisamos arregaçar as mangas para fazer.

A frase clichê número 2: Você não é todo mundo! Pare de se comparar aos outros. Apenas pare. Cada um tem uma vida e uma condição (lembre-se do que eu comentei ali em cima). A sua comparação precisa ser com você mesmo. Hoje eu bebi mais água que ontem, ontem dormi melhor que anteontem, esse ano li 2 livros a mais que ano passado. Segue o barco. A sua rotina é determinada por você e seus hábitos devem ser os melhores para você. Escute o seu corpo.

A frase clichê número 3: Se correr é pior! Se você não enfrentar o problema agora, depois a coisa vai ficar mais feia. Isso é fato. Ir deixando para depois, é um caminho sem volta. Ah, eu resolvo quando estiver mais folgada, começo a academia quando estiver mais livre no trabalho, começo a cozinhar quando terminar a reforma, leio outro livro quando terminar de escrever o projeto, e por aí segue a longa lista de mentiras que nós contamos a nós mesmos. O tempo é agora, a sua saúde é agora. Não adianta postergar para quando você estiver se sentindo melhor, porque a realidade é dura: você não está se sentindo melhor porque está postergando as coisas que precisa fazer já, e não depois.

Tá parecendo até homenagem de dias da mães né?! Não foi programado, eu juro. Minha mãe é sábia, e segundo ela o aprendizado veio da minha vó. Ou seja, a sabedoria é antiga e vai apenas melhorando. O fato é que, inúmeras coisas podem e irão afetar o seu estado motivacional, o seu potencial de agir, o seu gás, a sua vontade, o seu desejo, o seu pique (chame como quiser), e sobre muitos deles eu já falei aqui nas minhas colunas. O sono, o exercício físico, a exposição à luz solar, os seus hábitos alimentares, os hormônios, vou bater na tecla mais uma vez, está tudo conectado, não tem como fugir do seu corpo. Deliberadamente eu falei de hormônios, porque foi um dos assuntos mais pedidos pelos leitores. E adivinha? O que regula a produção de hormônios: volte 3 linhas. A disposição de milhões, aquela que a maioria das crianças tem, é a que a gente quer cultivar. Olhem para suas crianças, elas não bebem, não fumam, não viram a noite, não passam o dia todo sentadas na frente do computador ou comem a quantidade de alimentos industrializados que você come (ou ao menos não deveriam), não mentem ou discriminam gratuitamente, adoram brincar na rua, adoram fazer coisas novas. Já faz quase um ano, quando escrevi a minha primeira coluna aqui, e a mensagem continua sendo atemporal: precisamos ser mais crianças!

Maíra Assunção Bicca
Maíra Assunção Bicca

Farmacologista e Neurocientista
Pós-doutorado em Imunofarmacologia (UFSC - 2016) e em Neurobiologia (Northwestern University - 2017-2019)
Research Fellow no Neurosurgery Pain Research Institute - Departamento de Neurocirurgia e Neurociência da Johns Hopkins School of Medicine.