Medalha de ouro na sabedoria

Medalha de ouro na sabedoria

05 de agosto de 2021

- Manhê...Eu queria um skate igual o da Fadinha, grita Lice.

- Filha, você quer ser skatista? Que aventura!

- Não mãe, eu quero ser medalhista.

A mãe ri desordenamente e abre um sorriso largo ao final.

- Acho que o que você quer ser é esportista, não é mesmo?!

- Não mãe, eu quero a medalha de ouro!

A mãe senta-se ao lado dela no tapete de brincar da sala e reflete em voz alta, porém num tom calmo.

- Se a gente é bom no que faz, não importa se tem medalha ou não; Se a gente é feliz e incentiva os outros, essa é a nossa melhor medalha; Se a gente dá o nosso melhor e melhora também no processo, o ouro já veio, de dentro para fora.

- Nossa mãe, eu quero ser que nem você quando crescer.

A mãe derretida, escondendo uma pequena lágrima de emoção no canto do olho, decide perguntar o porquê.

- Porque você é medalha de ouro, manhê!



Impossível não se emocionar e torcer durante uma Olimpíada, no fundo todos queremos ver os atletas do Brasil vitoriosos. Nós bem sabemos que num país que de maneira muito precária incentiva, patrocina, oportuniza e fomenta um esporte que não seja o futebol, a medalha significa muito mais do que uma vitória olímpica. É uma superação para a vida! É uma conquista ímpar! É um momento que representa a força, dedicação e o amor do atleta pelo esporte, por ele mesmo, e pelo país. Assim é fazer ciência no Brasil. A ciência brasileira e o esporte caminham juntos. Tem que ser muito herói. Tem que amar muito o que faz. Tem que vestir a camisa. Tem que acreditar no potencial. Porque potencial nós temos, sobrando até. Infelizmente, o investimento é indiretamente proporcional. Dá uma alegria quando vemos um atleta/cientista brasileiro “despontando”, “fazendo e acontecendo”, provando que o nosso povo é capaz. Entretanto, numa miscêlania de sentimentos, quase que simultaneamente, dá uma tristeza profunda. Porque é impossível não pensar: e se a gente investisse e apoiasse mais, quantas Rayssas, Alisons, Rebecas, Ítalos, Abners, não teríamos. Quantas pesquisas, prêmios Nobel, vacinas e inovações tecnológicas, poderíamos ter. Vemos arraigada a nossa cultura de “McGyver”, o famoso jeitinho brasileiro, porque nós somos obrigados a dar um jeito, se não as coisas não acontecem. Não tem como atravessar a alegria de uma olimpíada sem pensar na tristeza de saber que o esporte não é valorizado como deveria. A ciência também não.

A ciência inclusive, já provou por inúmeros experimentos o quanto o exercício físico é benéfico para o corpo e para o cérebro. Não é “balela”. Quando você se exercita algumas células do seu corpo produzem moléculas (pequenas proteínas) que são capazes de estimular a produção de hormônios da tireóide, equilibrar os efeitos do hormônio do estresse, contrabalancear os efeitos negativos das moléculas inflamatórias que são liberadas pela sua camada de gordura abdominal, deixar as células do seu sistema imunológico mais preparadas, fortalecer as células das suas veias, artérias e do seu coração, proteger os seus neurônios das proteínas que se agregam com o envelhecimento além de estimular o nascimento de novos neurônios (coisa que até pouco tempo atrás acreditava-se impossível), melhorar a eficiência dos seus tecidos em responder à insulina - o hormônio do diabetes. Isso, só para citar alguns dos efeitos benéficos do exercício. Sim, você não precisa ser medalhista, não precisa ir para a olimpíada. Compita consigo mesmo, seja melhor do que você era ontem! Pratique um esporte, incentive os seus filhos a praticarem um esporte (a melhor maneira de aprender é pelo exemplo), pratiquem juntos. O esporte/exercício é compravadamente eficaz para manter a saúde física e mental. Instigue o melhor em você. Seja seu próprio ouro!

 

Maíra Assunção Bicca
Maíra Assunção Bicca

Farmacologista e Neurocientista
Pós-doutorado em Imunofarmacologia (UFSC - 2016) e em Neurobiologia (Northwestern University - 2017-2019)
Postdoctoral Fellow no Departamento de Neurocirurgia e Neurociência da Johns Hopkins University; Researcher no Neurosurgery Pain Research Institute