Infecção pelo Epstein-Barr e a esclerose múltipla

Infecção pelo Epstein-Barr e a esclerose múltipla

09 de fevereiro de 2022

Esclerose múltipla é uma doença autoimune que afeta o SNC. Nos pacientes com a doença, o sistema imune ataca a bainha de mielina que recobre os neurônios, e muitas vezes pode provocar a morte desses neurônios.

A causa da esclerose múltipla ainda é desconhecida pelos pesquisadores. Diversas hipóteses já foram levantadas, inclusive que a doença possa ser desencadeada por uma infecção viral, e entre os vírus candidatos está o Epstein-Barr (EBV). O EBV é um herpes vírus que geralmente não provoca nenhum sintoma, mas em alguns casos pode provocar uma infecção chamada mononucleose.

Após infectar um paciente, o vírus permanece num estado de latência dentro das células, e em alguns casos pode ser reativado. Estima-se que 95% dos adultos sejam infectados pelo vírus, mas uma parcela muito pequena desenvolve esclerose múltipla.

Para compreender a relação entre a infecção pelo EPV e a esclerose múltipla, cientistas estudaram mais de 10 milhões de indivíduos nos EUA entre os anos de 1993 e 2013. Os resultados desta pesquisa conduzida por pesquisadores da Universidade Harvard foi publicada na edição de janeiro da Revista Science.

O Estudo

A cada dois anos o sangue dos pacientes do estudo era coletado para análises de rotina, inclusive a pesquisa de infecção pelo EBV. De todos os pacientes estudados, 801 desenvolveram esclerose múltipla (apenas 1 não havia sido infectado pelo EBV). As amostras desses pacientes foram então comparadas com as amostras de 1500 pacientes com características similares, mas que não desenvolveram a doença.

Os resultados demonstraram que a taxa de infecção pelo EBV era muito maior entre os pacientes que desenvolveram esclerose múltipla do que entre os controles. Os cientistas estimaram que os pacientes infectados pelo EBV possuem 32 vezes mais chances de desenvolver a doença do que indivíduos não infectados. Outros vírus humanos foram investigados buscando encontrar novas associações, como o citomegalovírus, mas nenhuma foi encontrada.

Um biomarcador para denegeração nervosa (NfL) foi medido nas amostras de sangue dos indivíduos participantes do estudo. Os níveis de NfL estava aumentado nos indivíduos com esclerose múltipla, enquanto que nos pacientes saudáveis estava normal. Esse aumento nos níveis de NfL só ocorreu após a infecção pelo EBV e geralmente antes do diagnóstico de esclerose múltipla. Essa observação permitiu aos cientistas concluírem que a neurodegeneração que ocorre na esclerose múltipla só começou após a infecção pelo EBV.

Conclusões

A hipótese de que o EBV cause esclerose múltipla vem sendo estudada há muitos anos, mas esse estudo foi o primeiro a fornecer evidências concretas dessa hipótese. Para os pesquisadores esses resultados são animadores, porque sugerem que boa parte dos casos de esclerose múltipla poderiam ser prevenidos evitando a infecção pelo EBV.

Essa associação entre a infecção pelo EBV e esclerose múltipla é bastante robusta. Os resultados dessa pesquisa sugerem que a infecção pelo EBV é parte de cadeia de eventos que leva ao desenvolvimento da maioria dos casos de esclerose múltipla. Porém, é importante ressaltar que a infecção per se pelo EBV não é suficiente para desencadear a esclerose múltipla, uma variedade de outros fatores de risco e predisposição genética também estão envolvidos.

Incrível como a ciência se renova a cada dia. A possibilidade de prevenir uma doença até então "incurável" controlando a infecção por um vírus já garante uma luz no fim do túnel para a batalha contra a esclerose múltipla.

REFERÊNCIAS: Bjornevik K, Cortese M, Healy BC, Kuhle J, Mina MJ, Leng Y, Elledge SJ, Niebuhr DW, Scher AI, Munger KL, Ascherio A. Science. 2022 Jan 21;375(6578):296-301. doi: 10.1126/science.abj8222. Epub 2022 Jan 13. PMID: 35025605.

 

Marissa Schamne
Marissa Schamne
PhD | Cientista

Pesquisadora e professora universitária, farmacêutica por formação. Despertou o interesse pela pesquisa durante a faculdade na Iniciação Científica, que obviamente foi na área da neuropsicofarmacologia. Concluída a graduação, segue o caminho da carreira acadêmica e pesquisa até a co-fundação do Rigor Científico – onde encontrou uma maneira de expressar todo seu amor pela Ciência, e vislumbra a possibilidade de levar essas informações ao maior número possível de pessoas. Era uma pessoa tímida que conforme foi se inserindo no meio acadêmico encontrou uma forma de libertar-se dessa timidez, e agora matraqueia sem parar. Apaixonada pela natureza, esportes ao ar livre e a sensação de liberdade que isso traz. Gosta de viajar pelo mundo, seja através dos livros que lê ou das viagens que faz. Almeja alçar vôos mais altos divulgando ciência por aí.