Está muito escuro

Está muito escuro

14 de outubro de 2021

- Eu tenho pedido todas as noites para a mamãe ligar o foquinho, sabe, aquela luzinha ali, que a mamãe liga na nossa parede. Eu não quero dormir no escuro. Na escuridão total. Eu sinto uma coisa estranha quando tenho que enfrentar aquilo que eu não consigo ver. A mamãe diz que é normal a gente temer o desconhecido, isso ela diz nas palavras bonitas dela. Eu quase fiz xixi na cama esses dias porque eu não queria ir no banheiro no escuro. Eu passei calor embaixo da coberta na outra noite, suei muito, porque a coberta me deixa protegida. Quando você vai dormir na casa dos seus amiguinhos então, Lins, e eu fico aqui sozinha...

Lins ouve atentamente, sentado na cama, enquanto Lice explica veementemente seus sentimentos.

- Aí eu fico assim muito, mas muito agitada. Tenho arrepios só de pensar. Na escola eu não conto isso para ninguém porque eu quero ser ‘fortona’ e não preciso que ninguém saiba das minhas pequenas fraquezas. Às vezes eu penso, como a mamãe e o papai ficaram assim tão invencíveis? Eles não tem problema nenhum com o escuro. Nada. Zero. Acho que eu quero crescer logo, para ser assim cheia de razão igual a mamãe e certa de mim mesma igual o papai. Eu sinto uma coisa estranha sabe, eu não sei explicar muito bem.

A mãe ouve a conversa do corredor, aproxima-se com cautela da porta do quarto e diz numa voz doce:

- Isso que você tem é MEDO Clarice, e todo mundo tem um pouquinho ou um ‘muitinho’, de diferentes coisas.

- Do que você tem medo manhê? Porque do escuro você não tem, nadinha. Pergunta Lins, pacientemente.

- Eu tenho medo meus filhos, de muitas coisas, que vocês crianças não precisam se preocupar agora, mas o maior deles é de “perder” vocês. Rebeca falou perder pensando nos pelo menos 35 sentidos que perder poderia ter, mas não quis aprofundar o assunto, os filhos ainda não precisavam saber dos detalhes.

- Mãe, é muito mais fácil perder a gente no escuro, não? Viu? Eu tô é certa de ter medo do escuro.

 

Nestas últimas semanas tenho abordado, em sequência, temas como depressão, ansiedade, e medo. E o objetivo aqui é que fique claro que a maioria desses fenômenos são fisiológicos, ou seja, ocorrem de maneira natural no nosso corpo, e que por muitos motivos eles acabam por acontecer de forma exagerada ou exacerbada, e aí sim nós temos uma patologia, ou melhor dizendo uma doença. ‘Eu já falei e vou repetir’ (eu cantei na minha cabeça como a gente cantava nas gincanas do colégio) ‘é nosso cérebro que manda aqui!’ Eu também já falei e também vou repetir, não é porque esses transtornos acontecem dentro da nossa cabeça que isso é ‘coisa da cabeça das pessoas’, ou seja, inventado por alguém. Já está mais do que na hora de parar de cunhar pessoas que sofrem de medo ou ansiedade exagerados (doença), ou de depressão, de loucos.

Primeiramente, que para chamar alguém de louco você está assumindo que existe um “normal”. Eita palavrinha que eu tenho aversão, NORMAL. O que é normal? Quem vive na normalidade? O que é o padrão? Quem inventou esse conceito? E quem determinou o que é normal ou não? As ‘normalidades’ mudam conforme os tempos e as cabeças mudam. As nossas cabeças e a cabeça do coletivo (das pessoas de modo geral) estão em constante mudança e aprendizado. Assim como a ciência em constante evolução e, portanto, as tecnologias permitindo que fatos sejam provados. Fatos esses que outrora não poderiam ser afirmados porque não haviam tecnologias disponíveis para tal. Ou seja, os conceitos mudam, as cabeças mudam, o conhecimento muda, tudo muda. E usar a palavra normal é uma maneira muito mesquinha de rotular pessoas e ideias. Bem como, chamar alguém de louco por ser exceção ao que foi dito normal, parece ser ainda mais vil. Pense nisso!

Voltando ao assunto, o MEDO é uma reação fisiológica, ou seja, todos temos em menor ou maior grau. Eu abordei brevemente na coluna da semana passada. A sensação de medo nos ajuda a lidar com o desconhecido de forma cautelosa. E frente ao desconhecido há muitas, eu disse muitas, maneiras de reagir. Dentre todas as opções, podemos categorizar ou separar as reações em dois principais grupos: LUTA ou FUGA. Essa é uma definição bem conhecida da ciência, e bem estudada em muitos animais, que não só o homem. Ou seja, estão vastamente presentes em todo reino animal. Basicamente essa reação dual quer dizer que em situações de perigo ou nós corremos ou nós enfrentamos. E aí, para nós humanos, no correr existem muitas possibilidades como esconder-se, tremer-se, fingir de morto; e no enfrentar existem outras tantas, como de fato lutar, fazer esforços físicos surreais, falar alto, de fato correr, entre outros. São mecanismos necessários para enfrentarmos as situações que irão aparecer no nosso dia-a-dia.

O problema aparece quando o cérebro perde o controle, e o MEDO passa a ditar como a pessoa vive. E, em palavras simples, a pessoa vive com medo, o tempo todo. Impede o indivíduo de sair de dentro de casa, de andar na rua, de falar com as pessoas. Impede de trabalhar, de conseguir ir a escola, impede de fazer exercícios, ou faz com que o indíviduo se encha de remédios, ou lave as mãos compulsivamente, ou se exercite compulsivamente. Faz com que o indivíduo vomite, as mãos suem, os olhos percam o foco. Veja, isso não é comum. Algo de errado não está certo, como diriam os jovens. Em muitas vezes, estas pessoas precisam de ajuda, porque elas não sabem reconhecer por si mesmas que estão enfrentando esse problema. Esteja atento aos que você ama e cuida. Observe. Não é a toa que eu venho escrevendo sobre esses temas, tão importantes, é um combo lembra? Geralmente eles não andam sozinhos. Os sinais na maioria das vezes são perceptíveis. Não podemos deixar o medo, a ansiedade, a depressão vencerem. Principalmente, não podemos dar espaço ao preconceito. Porque quando o nosso pré-conceito vence, nasce a possibilidade de invalidar o outro, de aumentar a escuridão do outro, de alimentar o medo do próximo.

 

Maíra Assunção Bicca
Maíra Assunção Bicca

Farmacologista e Neurocientista
Pós-doutorado em Imunofarmacologia (UFSC - 2016) e em Neurobiologia (Northwestern University - 2017-2019)
Postdoctoral Fellow no Departamento de Neurocirurgia e Neurociência da Johns Hopkins University; Researcher no Neurosurgery Pain Research Institute