Efeitos adversos e psicofármacos - como manejar?

Efeitos adversos e psicofármacos - como manejar?

01 de março de 2023

A escolha de um psicofármaco para o tratamento de determinado transtorno do SNC depende de fatores específicos do paciente e do fármaco.
O médico, ao prescrever, deverá levar em conta:

  1. o diagnóstico,
  2. o perfil e a gravidade dos sintomas,
  3. a idade do paciente,
  4. presença de co-morbidades psiquiátricas e clínicas,
  5. limitações física do paciente,
  6. outros medicamentos utilizados pelo paciente,
  7. características clínicas do paciente,
  8. o perfil de efeitos colaterais, segurança e tolerabilidade dos medicamentos,
  9. história prévia do transtorno psiquiátrico e resposta aos tratamentos anteriores,
  10. histórico familiar.

Além disso, existem alguns fatores inerentes aos fármacos que também precisam ser considerados: a) disponibilidade do medicamento, b) custo e c) preparações disponíveis.
 

Na maioria dos casos, a dose única diária é sempre preferível devido à maior conveniência e comodidade do paciente, garantindo adesão ao tratamento. Um erro clínico muito frequente e perigoso é o uso de múltiplos fármacos para tratar diversos sintomas específicos, ao invés de se tratar o transtorno subjacente em si. Porém, existem casos, que devido às condições psiquiátricas, necessitem da prescrição de outros psicofármacos adicionais. Nestes casos, o uso racional de vários medicamentos deve ser diferenciado da polifármacia inadequada.

Uma vez definido o tratamento, o médico irá traçar o plano terapêutico, que contempla o tratamento de fase aguda, de manutenção e as medidas de prevenção de recaídas. Além disso, definirá as doses para cada uma das fases, tempo de tratamento e os critérios para avaliar a efetividade do tratamento. Ainda, irá avaliar a necessidade de associação com outras estratégias terapêuticas, farmacológicas ou não.

É importante que o paciente, quando possível, esteja esclarecido sobre seu plano terapêutico, visando obter a maior adesão ao tratamento, seja do paciente, como da família.

Com a instituição do tratamento, ao longo do tempo, é possível observar a resposta terapêutica ao medicamento, bem como o surgimento de alguns efeitos adversos e outros problemas relacionados ao medicamento, como a tolerância, dessensibilização, dependência e síndrome de abstinência.

Quando se faz uso de medicamentos, sejam psicotrópicos ou não, o risco de desenvolvimento de efeitos adversos é inevitável. Apesar disso, os psicofármacos são considerados medicamentos seguros, principalmente se usamos de forma racional e orientada. Embora sejam seguros, deve-se levar em consideração os efeitos colaterais, pois estes são os principais motivos da não adesão do paciente à farmacoterapia.

Por isso, é fundamental que profissionais da saúde estejam familiarizados com os efeitos colaterais mais comuns, bem como as consequências médicas mais graves e como manejá-las, antes de iniciar o tratamento com um psicofármaco e mesmo durante a terapia medicamentosa.

Os psicofármacos são nossos aliados no tratamento dos transtornos que afetam o SNC, não podemos encará-los como um bicho de sete cabeças e nem condená-los pelo desconhecimento de causa. Esses medicamentos revolucionaram a terapia das doenças neuropsiquiátricas e permitiram (e permitem) que muitos pacientes vivam com qualidade de vida e com os sintomas das doenças controlados.

Outras possibilidades durante o tratamento com mais de um medicamento, sejam psicofármacos ou não, são as interações medicamentosas e com alimentos. As interações ocorrem quando a ação de um fármaco é alterada por outro fármaco/alimento administrado concomitantemente, podendo aumentar ou reduzir a atividade desse psicofármaco quanto de qualquer outro medicamento que o paciente utilize.

As interações podem envolver tanto mecanismos farmacocinéticos, relativos à absorção, distribuição, metabolização e excreção, quanto mecanismos farmacodinâmicos, que impactam no mecanismo de ação do fármaco. Em alguns casos essas interações podem aumentar as chances de um evento adverso. Porém, nem toda interação possuiu uma relevância na prática terapêutica, por isso é preciso considerar a relevância clínica da interação, a frequência com que ela acontece, a gravidade e a quais os possíveis medicamentos envolvidos.

Com o aumento do uso de psicofármacos na prática clínica, as interações medicamentosas e as reações adversas têm se tornado cada vez mais frequente. Dessa forma, é fundamental ter em mente essas considerações e focar nas interações e reações adversas clínicas importantes, sempre mantendo uma atitude aberta e receptiva quanto à possibilidade de interações medicamentosas e reações adversas trabalhando sempre em prol da saúde e qualidade de vida do paciente que precisa desse medicamento.

Marissa G. Schamne
Marissa G. Schamne
PhD | Cientista

Pesquisadora e professora universitária, farmacêutica por formação. Despertou o interesse pela pesquisa durante a faculdade na Iniciação Científica, que obviamente foi na área da neuropsicofarmacologia. Concluída a graduação, segue o caminho da carreira acadêmica e pesquisa até a co-fundação do Rigor Científico – onde encontrou uma maneira de expressar todo seu amor pela Ciência, e vislumbra a possibilidade de levar essas informações ao maior número possível de pessoas. Era uma pessoa tímida que conforme foi se inserindo no meio acadêmico encontrou uma forma de libertar-se dessa timidez, e agora matraqueia sem parar. Apaixonada pela natureza, esportes ao ar livre e a sensação de liberdade que isso traz. Gosta de viajar pelo mundo, seja através dos livros que lê ou das viagens que faz. Almeja alçar vôos mais altos divulgando ciência por aí.

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