Dormindo para consolidar

Dormindo para consolidar

13 de junho de 2022

Memória e hipocampo

Em várias aulas da graduação e de diferentes professores eu escutei a frase “não adianta virar a noite estudando para a prova, vocês precisam dormir para lembrar”. Até que comecei a me perguntar se realmente eu lembraria mais dos conteúdos se tivesse um boa noite de sono e buscando nas bases neuropsicológicas temos algumas respostas.

Iniciamos lá em 1950, com o caso H.M., que apresentou amnesia anterógrada após uma neurocirurgia de retirada de porções temporais mediais compreendendo áreas hipocampais, além de parte da amígdala, com a finalidade de reduzir ataques epilépticos. Dessa forma, evidenciou-se a importância dessas estruturas, principalmente o hipocampo, para consolidação das memórias e, também, que não há somente um sistema de memória. 

Memória de longo prazo e memória operacional

O processo da memória é dividido em dois sistemas e suas subdivisões: memória de longo prazo, compreendendo memória declarativa (memória para episódios de alta complexidade: eventos e fatos) e não declarativa (condicionamento de associações simples estímulo-resposta), e memória operacional. Dentro disso, a formação de memória de longo prazo é uma das principais funções do sono. 

De acordo com a revisão feita por Klinzing, Niethard, & Nascido (2019), e com base em evidências de estudos neurofisiológicos, a consolidação de memória de longo prazo durante o sono ocorre através de sistemas ativos que estão incorporados em um processo sináptico global. Os autores descrevem esses sistemas envolvendo a repetição neuronal de representações originadas do hipocampo durante o sono, que leva a uma transformação gradual e a integração de representações em redes neocorticais. 

A consolidação, pensando-se de forma básica, é o processo que transforma representações recém-codificados, que são passíveis de esquecimento, em memórias mais estáveis. Isto posto, Klinzing, Niethard, & Nascido (2019) relatam que quando um episódio é codificado, diferentes áreas do cérebro hospedam componentes dessa experiência, e assim, o hipocampo atua transformando esses elementos em uma única memória. Consequentemente, a memória começa altamente dependente do hipocampo, por isso que o paciente H.M. não conseguia mais consolidar memórias após a cirurgia, uma vez que, as repetições de padrões de disparo em conjuntos de neurônios hipocampais é uma característica fundamental da consolidação. 

Durante o sono, os processos de consolidação sináptica desencadeados por ativação neuronal fortalecem as representações de memória e, assim, permitem a integração às memórias de longo prazo pré-existentes; como, por exemplo, conectando aquelas informações recém estudas com o que já passou pelas etapas de aprendizagem, promovendo integração. 

Inicialmente, aceitava-se que o sono teria um efeito somente protetor nas memórias recém adquiridas e ainda lábeis (aquele conteúdo que a gente estudou um dia antes da prova), impedindo que elas sejam substituídas por novas informações, porém sabe-se que não é somente um processo protetivo e sim ativo de consolidação. Assim, observa-se que a perda de sono, ou seja, acordar durante a noite, ter um sono com interrupções, compromete o armazenamento e a consolidação de memórias. 

Referências: 1. Klinzing, J.G., Niethard, N. & Born, J. Mechanisms of systems memory consolidation during sleep. Nat Neurosci 22, 1598–1610 (2019). 2. Fuentes, D.; Malloy-Diniz, L.F.; Camargo, C.H.P. & Cosenza, R.M. Neuropsicologia: teoria e prática. São Paulo: ArtMed, 2014. 

Isadora Machinski
Isadora Machinski
Farmacêutica

Mestranda em Ciências Farmacêuticas - UEPG, farmacêutica por formação, professora voluntária, acadêmica de Psicologia e ex-aluna da Certificação Rigor Científico em Neurpsicofarmacologia. Desde o primeiro ano da graduação estava imersa no universo da pesquisa, por meio da Iniciação Cientifica, transitando entre as áreas das Ciências Farmacêuticas até direcionar seus estudos às plantas medicinais. Antes de concluir a graduação em Farmácia, em meio a pandemia de COVID-19, iniciou seus estudos em Psicologia e então nasceu a integração entre etnofarmacologia e neurofarmacologia. Segue, então, o caminho da carreira acadêmica e pesquisa através do mestrado acadêmico aprofundando esse interesse. Encantada pela ciência e apaixonada por lecionar e compartilhar conhecimentos.