Doces ou Travessuras

Doces ou Travessuras

29 de outubro de 2021

- Então Otávio, assim que o GLUT2 é sensibilizado no pâncreas depois da ingestão de alimentos, principalmente carboidratos simples, ele estimula a liberação de vesículas pelas células beta pancreáticas, que contém peptídeo C (geralmente pouco lembrado) e insulina. A insulina ao cair na corrente sanguínea vai viajar o corpo e atuar nos seus receptores específicos nos tecidos, como músculo e tecido adiposo, por exemplo...

Clarice chega ao final do corredor, quase na cozinha, e ao ouvir a voz da mãe muito engajada, ela decide ouvir a história de lá mesmo. Escondida obviamente, porque ela já sabe que a mamãe detesta que as crianças se intrometam na conversa dos adultos.

...e aí uma cascata de sinalização é ativada: IRS1, PI3 quinase, AKT, mTOR, GSK3beta, JNK, PPARgama, fazendo com que os transportadores de insulina sejam translocados para a membrana. Esses transportadores denominados GLUT4 permitem que a glicose seja armazenada no tecido. Isso tudo funciona muito bem, quando as coisas estão bem. Porém quando as coisas não andam bem, a Diabete é a culpada. Quero dizer, é aí que todos esses mecanismos são alterados. Fala Rebeca, em tom firme e decidido ao marido, enquanto os dois fazem a janta, treinando para a sua apresentação na conferência que está por vir.

Lice, ao ouvir tudo aquilo que a mãe acabara de pronunciar, arregala os olhos e fica de queixo caído, com a maior cara de susto, quase que congelada. No instante em que recupera parcialmente o fôlego, ela sai correndo na direção pela qual veio, direto para o quarto.

- Lins, Lins, Lins, você tem que ouvir isso, eu acho que a mamãe está muito brava com a Tia Bete. Fala ela quase sem fôlego, que foi consequência do susto somado à corrida.

-Como assim Lice? A mamãe adora a Tia Bete, o que foi que você ouviu?  Pergunta Lins, meio descrente da fofoca que a irmã acabou de contar.

- Eu não sei bem direitinho dizer tudo que a mamãe falou, porque você sabe que ela tem umas palavras bem difíceis, né?! A única coisa que eu sei é que a mamãe falou um monte de palavrão seguido, um atrás do outro, e no final ela falou algo do tipo: é tudo culpa da Tia Bete!!

A tal da DIABETE, ou seria a Diabetes, ou o Diabetes? Originalmente, considerando a raiz grega dessa palavra, o termo correto seria o Diabetes, porém porque na língua portuguesa nós podemos nos referir à Diabetes doença, a Diabetes também está correto. As maneiras populares de falar usam o termo no singular, o Diabete e a Diabete, no caso. Todas as maneiras são aceitas. O importante de tudo é entender como essa doença afeta milhões de brasileiros e o que fazer para prevenir/tratar essa doença. Achei oportuno trazer esse tema em época de Halloween, dia das Bruxas, ou dia do Saci, como preferirem. Porque nesta data as crianças e adultos comem muitos doces, e já que é para falar de doce, açúcar e glicose, muito conveniente falar em Diabetes. 

Glicose, uma palavra comum até. Nós fazemos exames regulares de sangue para  medir os níveis de glicose, ou no popular, para ver a diabetes. Pode parecer redundante explicar como essas duas coisas estão conectadas, mas muita gente não entende muito bem. Pois bem, eu vou tentar explicar. A glicose é uma forma mais simples de açúcar, sim você leu corretamente, glicose é um açúcar, no nosso sangue. Você precisa entender que toda glicose é um açúcar mas nem todo açúcar é uma glicose. Maíra, socorro, não complica!

É fácil, existem muitos tipos de açúcares – e aqui eu estou falando da fórmula química, não do açúcar mascavo, cristal, ou refinado, eu vou chegar lá – como por exemplo, aqueles derivados das frutas, que são chamados frutose, ou derivados do malte, que são chamados maltose, ou ainda derivados do leite, que são chamados lactose. Lactose, palavra bem em alta nos últimos tempos, quem aí conhece alguém intolerante à lactose? Não vamos fugir do tema, esse tópico será abordado nas próximas colunas.

O fato é que, geralmente quando a palavra não é uma doença (exemplo: artrose, fibrose, cirrose) e termina em ose (por causa da sua estrutura química), quer dizer que é um açúcar. Agora sentem-se: os açúcares são carboidratos, em sua forma mais simples. Sim, carboidratos! Que são assim chamados porque sua estrutura química principal é feita de carbono e hidrogênio. Eu prometo que eu não vou ficar pegando pesado na química, sabe como é né?! Filha da professora de química mais maravilhosa do Sul do planeta, eu tenho as minhas tendências. Perdoem-me. Eu quero que você entenda o básico para entender depois a doença. O que eu quero que você compreenda aqui é que, a maioria das coisas que você come, os famosos carboidratos, que algumas dietas mandam cortar, são açúcares e irão virar no seu sangue: glicose. Ou seja, depois de processados, quebrados e transformados, na sua boca, no seu estômago e intestinos, eles vão virar açúcar simples, a famosa glicose, que vai viajar na sua corrente sanguínea (no seu sangue). Depois de comer aquele pão, aquele bolo, aquele macarrão, aquela coxinha, aquele biscoito, entre outros, o seu corpo vai trabalhar a todo vapor para transformar essa massa de comida em algo que ele possa aproveitar, a glicose. É por isso que a gente faz jejum antes de fazer exame de sangue para medir a glicose. Tá bom, mas porque o corpo precisa de glicose? Lembra do nosso poderoso chefão? Do nosso comandante? Sim, o cérebro é alimentado de quê? De glicose. Sim, o cérebro é o motor do carro, e para funcionar, a gasolina dele é o açúcar. Todas as outras peças do carro dependem direta ou indiretamente de gasolina, assim como no corpo todos os órgãos dependem direta ou indiretamente de glicose. É com esse açúcar que a gente funciona.

Fazemos refeições em algumas horas do dia, não comemos o tempo todo para funcionar, certo? Assim como o carro tem um tanque para estocar a gasolina, o corpo tem alguns tanques que estocam a glicose. Ou seja, a gente armazena. A diferença do carro para o corpo é que, no carro a coisa é um pouco mais simples, você bota a gasolina direto no tanque e quando precisa, liga o carro e a gasolina é injetada no motor, assim simplificando, claro, eu não sou mecânica e nem vou me aventurar. No nosso corpo, nós comemos, aí primeiro o organismo tem que transformar a comida em glicose, que vai ficar viajando no nosso sangue, até que os tanques recebam o sinal de que a glicose vai entrar, para ser armazenada. É um sistema bem complexo. Entretanto, não há nada assim tão complexo que a gente não possa simplificar. Os principais tanques do nosso corpo são o fígado, os músculos e o tecido adiposo (aquela gordurinha na nossa barriga que a gente está sempre almejando perder). A glicose é estocada principalmente no fígado. Acontece que, para entrar lá, o fígado tem que ter recebido um sinal para abrir a porta para a glicose. ‘Um homem bateu em minha porta e eu abri, senhoras e senhores põe a mão no chão’, meu cérebro cantou enquanto eu digitava essa frase. Ou ainda, lembrei do Alladin, que tinha que falar as palavras mágicas para abrir a caverna. Então, para entrar no tanque, a glicose precisa que o nosso corpo fabrique e libere na corrente sanguínea a famosa – que rufem os tambores – INSULINA.

A “marvada” da insulina é a molécula que sinaliza para o corpo que a glicose tem que entrar. Tipo assim: Alô corpinhoooo, esse ser humaninho comeu muito, tem muita glicose sobrando, mais do que o nosso comandante tá precisando no momento, bora estocar?! Grita a insulina. E claro, a insulina é fabricada por outro órgão, o pâncreas. Tipo assim, a insulina é o óleo, que o motor do carro também precisa para funcionar, e que é armazenado num compartimento separado. Assim, a insulina é fabricada e armazenada no pâncreas. E, quando a gente come, depois de todo aquele trabalho para transformar a comida em glicose que eu já falei antes, a glicose viaja no sangue e chega em muitos lugares. Ao passar pelo pâncreas, ela provoca um sinal que diz: Ei querido pâncreas, bora se mexer e soltar a insulina no sangue?  Como ela faz isso? O pâncreas tem sensores. Sabe os sensores de ré, que apitam quando o carro se aproxima de algo quando vamos estacionar? Desse mesmo jeito, os sensores do pâncreas “apitam” quando a glicose passa por eles. E gritam: tá na hora de soltar a insulina, meu filho!  E, obviamente, porque o nosso organismo é complexo e lindo, para fazer o seu papel a insulina também precisa que todos os outros órgãos estejam funcionando bem belezinha. Por que isso? Porque para o fígado abrir a porta para a glicose entrar, o fígado também tem que ‘perceber’ a insulina, também através de sensores, diferentes daquele que o pâncreas tem. Os sensores do fígado poderiam ser os sensores de luz acesa, quando desligamos o carro e deixamos o farol ligado. Irritantes! Os detectores percebem que a luz está acesa e soam o alarme. O fígado e seus sensores (as proteínas na membrana que reconhecem a insulina) sentem a insulina e aí meus amores, o alarme soa alto, e a consequência disso é que dentro da célula começa um trabalho enorme, passando de uma proteína para outra, um verdadeira cascata, tudo para que aquela famosa porta vá para a membrana da célula e se abra, para finalmente a glicose poder entrar. Cansou?

E eu ainda nem falei da Tia Bete, ops, da diabete. Tudo bem, a intenção nunca foi falar dela nesse texto, eu confesso. Esse tema, por ser bastante complexo, de muito interesse dos leitores, bastante comum no nosso dia-a-dia moderno, e relacionado com outras doenças como obesidade e síndrome metabólica, vai ser abordado em uma série de colunas a partir de hoje. Portanto, se eu fosse você eu não perderia o andar desse carro, vem comigo nessa viagem? Vamos colocar uma playlist maneira, cantar alto, e entender juntos, de uma vez por todas, como nosso carro funciona e como a gente faz para que ele dure muito tempo, sem maiores problemas. Quem que gosta de gastar dinheiro no mecânico, ou no médico neste caso? Eu sei que a gasolina está cara, mas viajar comigo nesse carro que é nosso corpo, eu prometo, vai ser um barato. E aí, doces ou travessuras?

Maíra Assunção Bicca
Maíra Assunção Bicca

Farmacologista e Neurocientista
Pós-doutorado em Imunofarmacologia (UFSC - 2016) e em Neurobiologia (Northwestern University - 2017-2019)
Postdoctoral Fellow no Departamento de Neurocirurgia e Neurociência da Johns Hopkins University; Researcher no Neurosurgery Pain Research Institute