Canabidiol no tratamento de epilepsias refratárias

Canabidiol no tratamento de epilepsias refratárias

23 de março de 2021

Embora a Cannabis seja utilizada há anos como uma "medicina alternativa" para aliviar convulsões, dor, ansiedade e inflamação, existem poucas revisões científicas para provar e estabelecer seu uso na clínica. O médico Elisaldo Carlini, um grande farmacologista e pesquisador brasileiro, é referência mundial e um dos pioneiros nos estudos farmacológicos sobre o potencial da Cannabis. Carlini herdou esse interesse de José Ribeiro do Valle, seu professor de Farmacologia na Escola Paulista de Medicina na década de 1950.

Nas décadas de 1970 e 1980 Carlini publicou, em parceria com seus grupos de pesquisa, mais de 40 trabalhos sobre o tema em periódicos internacionais. Esses dados somados com as investigações de outros grupos mundo a fora, possibilitaram o desenvolvimento no exterior de medicamentos à base de Cannabis sativa utilizados atualmente em vários países do mundo para o tratamento da náusea e dos vômitos provocados pela quimioterapia do câncer, para melhorar a caquexia de doentes com HIV e câncer, e para aliviar alguns tipos de dores.

A Cannabis sativa, uma planta popularmente conhecida por marijuana ou maconha, possui em sua composição mais de 140 fitocanabinoides. Outra fonte de canabinoides vem do nosso próprio organismo, chamados de endocanabinoides, produzidos mediante estimulação fisiológica. Existem também os canabinoides sintéticos.

Diversos estudos pré-clínicos e clínicos provam que os fitocanabinoides possuem propriedades anticonvulsivantes, e também podem ser uma alternativa promissora no tratamento do transtorno do estresse pós-traumático (PTSD - do inglês post traumatic stress disorder), depressão, ansiedade, doenças neurodegenerativas, adição e transtorno do espectro autista (TEA).

Estudos do grupo de pesquisa coordenado por Carlini no Brasil mostraram que o canabidiol (CBD), um fitocanabinoide não-psicotrópico, apresenta propriedades anticonvulsivantes em modelos animais e reduz a frequência das crises convulsivas em humanos em ensaios clínicos. Nos últimos anos, o uso do CBD no tratamento da epilepsia refratária, inclusive na Síndrome de Dravet e na Síndrome de Lennox-Gastaut, abriu uma nova era no que se refere ao tratamento desses pacientes.

O uso da Cannabis para o tratamento da epilepsia data de mais de 3800 anos, em registros dos Sumérios. Artigos científicos da década de 1940, tanto em modelos animais como pesquisa em crianças com epilepsia, foram os primeiros registros modernos do uso da Cannabis com fins terapêuticos na epilepsia.

Um fato que contribui para o avanço das pesquisas sobre os fitocanabinoides foi o isolamento, identificação estrutural e síntese do THC e do CBD por Mechoulam em 1960. Recentemente, cientistas do mundo todo apresentaram dados sobre os riscos e benefícios dos canabinoides no tratamento dos casos de epilepsia refratária. Os dois fitocanabinoides mais pesquisados para o tratamento dessa doença são o delta-9-tetrahidrocanabinol (THC - a substância psicoativa) e o canabidiol (CBD - composto não-psicoativo). Ambos apresentam resultados promissores em prevenir as crises convulsivas e reduzir a mortalidade, com boa tolerabilidade e baixa toxicidade.

O primeiro estudo científico em humanos sobre o uso do CBD no tratamento da epilepsia da era moderna da ciência, foi conduzido por Carlini e Mechoulam. Ao acompanharem pacientes com epilepsia em uso do CBD 200 mg por dia, foi possível perceber uma intensa melhora do seu estado epiléptico, em alguns casos chegando a zerar as crises convulsivas em 3 meses de tratamento (para saber mais: MECHOULAM R., CARLINI EA. Toward drugs derived from cannabis. Naturwissenschaften, 1978, 65: 174-179).


Graças as inúmeras contribuições de Elisaldo Carlini às pesquisas sobre o CBD no tratamento da epilepsia, o jornal The New York Times publicou em 2020 um editoral sobre o assunto considerando Carlini o descobridor do uso do CBD na epilepsia.

Elisaldo Carlini faleceu aos 90 anos em 16 de setembro de 2020, sua trajetória e carreira como intelectual, cientista e militante pela legalização da maconha medicinal mostram a grandeza do professor Carlini, tendo vivido a pesquisa e a vida acadêmica em dedicação exclusiva, até o último instante.

Linha do tempo com as contribuições de Carlini do uso do canabidiol no tratamento da epilepsia (FONTE: BITENCOURT, TAKAHASHI e CARLINI, 2021).

Linha do tempo com as contribuições de Carlini do uso do canabidiol no tratamento da epilepsia (FONTE: BITENCOURT, TAKAHASHI e CARLINI, 2021).

Em virtude dessas evidências positivas sobre os canabinoides, os cientistas começaram a se questionar se esses efeitos benéficos poderiam se estender a outras condições que afetam o SNC.

Hoje em dia, derivados da Cannabis fazem parte da lista de substâncias sujeitas a controle especial da ANVISA aqui no Brasil. Substâncias derivadas dos fitocanabinoides são consideradas como novas estratégias terapêuticas altamente promissoras no tratamento de diversas doenças, e representam uma luz no fim do túnel para esses pacientes.

É importante desmistificar e falar sobre o uso terapêutico medicinal da Cannabis. Deixar de lado "pré-conceitos" por tratar-se de substâncias derivadas de uma planta proscrita no nosso país. As melhorias na qualidade de vida dos pacientes tratados com fitocanabinoides ou com moduladores do sistema endocanabinoide são evidentes, e precisam valorizadas.

REFERÊNCIAS: (1) BITENCOURT RM., TAKAHASHI RN., CARLINI EA. From an alternative medicine to a new treatment for refractory epilepsies: can cannabidiol follow the same path to treat neuropsychiatric disorders? Frontiers in Psychiatry, 2021, 12:1-12. (2) MECHOULAM R., CARLINI EA. Toward drugs derived from cannabis. Naturwissenschaften, 1978, 65: 174-179. (3) MECHOULAM R., HANUS LO., PERTWEE R., HOWLETT AC. Early phytocannabinoid chemistry to endocannabinoids and beyond. Nature Reviews Neuroscience, 2014, 15:757-764.

Marissa Schamne
Marissa Schamne
PhD | Cientista

Pesquisadora e professora universitária, farmacêutica por formação. Despertou o interesse pela pesquisa durante a faculdade na Iniciação Científica, que obviamente foi na área da neuropsicofarmacologia. Concluída a graduação, segue o caminho da carreira acadêmica e pesquisa até a co-fundação do Rigor Científico – onde encontrou uma maneira de expressar todo seu amor pela Ciência, e vislumbra a possibilidade de levar essas informações ao maior número possível de pessoas. Era uma pessoa tímida que conforme foi se inserindo no meio acadêmico encontrou uma forma de libertar-se dessa timidez, e agora matraqueia sem parar. Apaixonada pela natureza, esportes ao ar livre e a sensação de liberdade que isso traz. Gosta de viajar pelo mundo, seja através dos livros que lê ou das viagens que faz. Almeja alçar vôos mais altos divulgando ciência por aí.