Bloquinho dos bacilos

Bloquinho dos bacilos

13 de abril de 2022

- Clarice, minha filha, o que você faz de fantasia de Marie Curie? O carnaval já passou meu bem, já estamos quase na Páscoa.

- Ah manhê, eu amo essa fantasia, quero ser cientista famosa, ganhadora de prêmio, todos os dias.

- Lice, você pode ser o que quiser todos os dias, não precisa de fantasia para isso.

- Mas, mas essa fantasia manhê, ela causa “impacto” – Lice falou isso com ênfase no PA, abrindo as mãos, como se uma bomba tivesse explodido, ali, no meio da sala.

Rebeca ficou estática por um momento, ao perceber que a filha já estava usando, num contexto apropriado, a palavra que acabara de aprender ­– no dia anterior – num contexto diferente, e decidiu entrar no embalo da filha.

- Quer dizer Lice que você gosta de impactar?

- Gosto muito mãe, tô até pensando em virar “digital influencer”.

- Rebeca segurou o riso e continuou na estória, dando asas à filha, emendando a pergunta: - Sobre o que você vai falar no seu canal ou no seu perfil, Lice?

- Quero falar para as mães do mundo todo que deixem as crianças vestirem as fantasias que quiserem, porque a gente gosta de criar o ano todo, não só no carnaval!

Vamos pular carnaval nesse bloquinho, mas não fique assim tão impactado, porque eu vim falar hoje de intestino, que compreende o grosso e o delgado. Rimou sem querer. Intestino? O que tem isso a ver com carnaval? Calma, eu te explico. Nós aprendemos lá na escola que os intestinos fazem parte do nosso sistema digestivo, que também inclui, além do fígado e pâncreas, a nossa boca, esôfago, estômago, e ânus. Na verdade se a gente contar o buraco da boca ao ânus, é como se fosse um grande tubo. Aprendemos que esse tubo é dentro-fora. Porque, mesmo que ele esteja dentro da gente, a boca e o ânus são buracos que fazem com que a parte de dentro do tubo seja um grande fora, ou seja, em contato com o exterior e não diretamente conectado aos outros órgãos que estão dentro-dentro, como coração, rim, pulmão, etc. Lembra disso? É como se você pensasse numa rosquinha que tem um buraco no meio, esse buraco está dentro da rosquinha, mas a parede do buraco é o lado de fora.

Toda essa introdução valeu para que a gente entenda que o nosso sistema digestivo está em constante contato com as “coisas de fora”. Ar, água, comida, saliva, fluídos, líquido, poluição, vírus, bactérias...absolutamente tudo. E todas essas coisas que passam por esse grande tubo elas deixam uma marca, elas causam um impacto.

Não dever ser novidade para ninguém, mas o nosso intestino está recheado de bactérias. É claro, é lá que muitos nutrientes e medicamentos são absorvidos, que as fezes se formam, que muitas mágicas acontecem. Essas bactérias que vivem dentro da gente, elas são um verdadeiro bloco de carnaval. Pensa num bloco que segue o trio elétrico e que leva todo mundo agarrado na corda do carangueijo. Pensa num bloco que determina como vai estar a condição do ambiente, que configura a ‘vibe’ da galera. Pensa num bloco cheio de indivíduos fantasiados exalando hormônios, querendo uma ‘pegação’. Esse é o nosso intestino. O carnaval acontece dentro de nós praticamente em todas as nossas refeições. Pense nisso!

Cada tipo de comida que você come é um trio elétrico novo tocando, claro que alguns trios seguem o mesmo ritmo, e portanto algumas comidas vão fazer impactos parecidos. Para acompanhar o trio as bactérias se vestem a caráter, com direito a abadá customizado e muito gliter. Elas não gostam de pular sozinhas, então logo a aglomeração acontece e elas já estão trocando abraços, beijos, perfumes e purpurinas. As refeições que comemos contém determinadas concentrações de proteína, gordura, carboidrato, fibras, etc (saiu o trio elétrico). Cada tipo de comida será metabolizado ao longo do trato digestivo (as músicas estão rolando). As bactérias vão reagir às moléculas que são liberadas durante a digestão pelos alimentos e pelas células da parede do tubo digestivo (o bloco tá vestindo a fantasia). Uma vez caracterizadas as bactérias influenciam o ambiente liberando outras moléculas e chamando outras células para participar do ‘bloco’ (é muito beijo na boca e purpurina no ar). 

Parece muito bobo, mas é isso, as bactérias são muito influenciadoras. Se elas estivessem no Instagram ou no Tik Tok, teriam milhões de seguidores. É muito cliché dizer isso, mas eu tenho que dizer, se você come alimentos que promovem a inflamação, as suas bactérias terão um perfil inflamatório, logo, todo o ambiente do seu intestino terá esse mesmo caráter, suas células imunes, o muco produzido, os gases, etc. Por outro lado, se você come alimentos que combatem a inflamação, são antioxidantes e pró-resolução, logo seu intestino e todo o ambiente terão também esse perfil. A inflamação prolongada de baixo grau é o ambiente perfeito para o aparecimento de inúmeras doenças, que nós queremos muito evitar, como diabetes, obesidade, câncer, Alzheimer. Alzheimer, Maíra? Começaste falando de intestino e agora já está falando de doença da cabeça? Ficou doida da cabeça?

Não fiquei não, estou muito sã. Você já ouviu falar que o nosso intestino é o nosso segundo cérebro? Se não, se liga nessa! A quantidade e qualidade de terminações nervosas e sinapes que acontecem no intestino é tão importante quanto as das que acontecem no cérebro. É isso, eu estou dizendo que no intestino tem neurônios, e que eles mandam mensagens para muitos lugares e órgãos do corpo, incluindo claro, o nosso poderoso chefão (cérebro). A pesquisa científica nos últimos 10 anos avançou de maneira fantástica mostrando a importância do eixo intestino-cérebro (do inglês; gut-brain axis). Você iria se espantar com a quantidade de evidencias científicas mostrando como as bactérias do nosso intestino, influenciam a dor que sentimos, a nossa fome, a nossa disposição, o nosso humor, como irão reagir as células de defesa do corpo, e como nosso cérebro orquestra muitas coisas no ritmo determinado pelo “bloquinho dos bacilos”. A próxima vez que for comer pense, qual micareta vai acontecer dentro-fora de você?

Maíra Assunção Bicca
Maíra Assunção Bicca

Farmacologista e Neurocientista
Pós-doutorado em Imunofarmacologia (UFSC - 2016) e em Neurobiologia (Northwestern University - 2017-2019)
Research Fellow no Neurosurgery Pain Research Institute - Departamento de Neurocirurgia e Neurociência da Johns Hopkins School of Medicine.