Por que o tratamento medicamentoso da dependência do álcool é tão difícil?

Por que o tratamento medicamentoso da dependência do álcool é tão difícil?

22 de julho de 2021

Muita se fala sobre a dependência química, mas pouco se fala sobre o seu tratamento. O uso abusivo de álcool pode muita vezes ser mascarado pela sociedade por se tratar de uma substância de uso lícito. O 3º Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira, divulgado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em 2019, mostrou que 2,3 milhões de brasileiros apresentam critérios para a dependência de álcool.

Falar sobre a dependência química ainda é um tabu muito grande na nossa sociedade e muitas pessoas não encaram como uma doença, o que de fato é. Esclarecer tópicos sobre esse assunto, falar sobre opções de tratamento medicamentoso ou não, faz parte da nossa responsabilidade enquanto divulgadoras científicas e profissionais da saúde.

Tratamento do alcoolismo

O tratamento do etilismo pode ser feito com terapia para ajudar a desenvolver estratégias de enfrentamento e habilidades para lidar com a dependência, visando reduzir ou cessar completamente o consumo de álcool.

Esse tratamento também pode ser feito com medicações. O FDA aprovou o uso de 3 substâncias: naltrexona, acamprosato e disulfiram. Essas medicações podem usar os etilistas a superar a "fissura" pelo álcool, evitam recaídas e nenhuma delas possui potencial aditivo.

Um recente estudo apontou uma grande falha no acompanhamento desses pacientes. Considerando dados dos EUA, onde em 2019, cerca de 14,1 milhões de pessoas foram diagnosticadas como dependentes do álcool, apenas 223 mil usaram medicamentos como adjuvantes da terapia.

Os pacientes em uso de medicação fora, aqueles que mais receberam suporte de saúde mental, porém, também eram os casos de dependência mais severa. Além disso, eram pessoas que viviam em condições de maior acesso aos serviços de tratamento.

E o que tudo isso significa?

Que existem medicamentos disponíveis para o tratamento dessa dependência química, porém são pouco prescritos, mesmo sendo aprovados para tal fim. Que o acesso a essas medicações e orientações sobre a importância da sua prescrição como complementares ao tratamento da dependência etílica precisam melhorar. A educação em saúde de profissionais e pacientes é fundamental para tornar essas opções parte da prática clínica, visando sempre o bem estar e recuperação do paciente.

Referência: Use of Medications for Alcohol Use Disorder in the US: Results From the 2019 National Survey on Drug Use and Health. Han B, Jones CM, Einstein EB, Powell PA, Compton WM. JAMA Psychiatry. 2021 Jun 16. doi: 10.1001/jamapsychiatry.2021.1271.

Marissa Schamne
Marissa Schamne
PhD | Cientista

Pesquisadora e professora universitária, farmacêutica por formação. Despertou o interesse pela pesquisa durante a faculdade na Iniciação Científica, que obviamente foi na área da neuropsicofarmacologia. Concluída a graduação, segue o caminho da carreira acadêmica e pesquisa até a co-fundação do Rigor Científico – onde encontrou uma maneira de expressar todo seu amor pela Ciência, e vislumbra a possibilidade de levar essas informações ao maior número possível de pessoas. Era uma pessoa tímida que conforme foi se inserindo no meio acadêmico encontrou uma forma de libertar-se dessa timidez, e agora matraqueia sem parar. Apaixonada pela natureza, esportes ao ar livre e a sensação de liberdade que isso traz. Gosta de viajar pelo mundo, seja através dos livros que lê ou das viagens que faz. Almeja alçar vôos mais altos divulgando ciência por aí.