A enfermagem na assistência, pesquisa e docência

A enfermagem na assistência, pesquisa e docência

08 de junho de 2021

Meu nome é Lillian Caroline Fernandes e sou Enfermeira.

Minha trajetória na Enfermagem começou após uma internação em 2016. Diante daquela situação, em que eu tinha sentimentos de medo e insegurança, eu observava o trabalho dos profissionais de saúde. Nessa observação, eu passei a admirar muito o trabalho dos profissionais enfermeiros através das visitas, perguntando como passei meu dia, me examinando e perguntando diversas coisas. Foi ali que tive o desejo de ser a enfermeira que foram para mim. Lembro que eu pensava: ”quero um contato próximo com o paciente dessa forma”. Para mim, a enfermagem não me escolheu, eu escolhi ela diante dessa situação e venho escolhendo desde então.

Na pesquisa

Durante minha trajetória acadêmica, a pesquisa veio cedo (no 2º ano da graduação) a partir da oportunidade de realizar iniciação científica. A iniciação me proporcionou, não apenas a ideia de execução de protocolos de pesquisa, mas me trouxe a visão do que é ser um pesquisador e o poder que a pesquisa tem de mudar diversos contextos profissionais. Eu devo muitos agradecimentos ao meu orientador de iniciação científica, o professor Edmar, e a todos os mestres que faziam muito mais do que passar o conteúdo referente a enfermagem, mas mudavam vidas, perspectivas e sonhos! Foi a partir destes profissionais, da visão deles, que eu vi que poderia sim ser capaz de ser mais do que uma enfermeira, eu poderia ser uma enfermeira pesquisadora. Foi a partir dessa inspiração e motivação que realizei meu mestrado e atualmente estou realizando o doutorado.

Conforme nossa trajetória profissional vai sendo desenvolvida, percebemos como as coisas poderiam ser diferentes e que seria possível realizar diversas melhorias profissionais no contexto em geral da profissão. Essa percepção só acontece devido ao conhecimento adquirido pela nossa formação, associado a buscas de nosso interesse. Durante essa busca incansável de constante melhoria, muitas vezes eu pensava: o que poderia ser feito para mudar esse contexto? Hoje eu percebo que a resposta é conhecimento e pesquisa.

A pesquisa na área de saúde, especialmente na enfermagem, tem como foco o indivíduo e a assistência de saúde. Como enfermeira inserida no contexto da pesquisa e no ensino, sempre tive a visão de que é preciso conhecer o processo de assistência em saúde, pois tudo parte de lá, a assistência sempre representa o meu ponto de partida e o meu destino, independente se a pesquisa em questão é de área básica ou clínica. Conhecer o local e os processos onde acontecem na assistência para mim, representa algo essencial para o ensino e à docência.

Durante todo processo de formação profissional, nossa visão é voltada para o cuidado com o sujeito e temos a consciência que estaremos nos melhores e nos piores dias de diversas daquelas pessoas, bem como de suas extensões, representadas pelas famílias e círculo social que o cercam. O sentimento que deve sempre ser enaltecido é: “como eu posso melhorar esse processo de assistência”; “como tornar esse processo livre de possíveis danos a estes indivíduos”; “como proporcionar uma boa experiência diante da situação vivida?” e a resposta vem a partir da pesquisa.

A pesquisa embasa a conduta, as medidas adotadas e nossa prática profissional. A pesquisa forma profissionais que não estarão apenas “reproduzindo” técnicas e pensamentos anteriormente adotados como certo. A pesquisa proporciona aplicar a melhor evidência de cuidado para aquele sujeito em questão.

Na docência

Eu trabalho como professora em Ensino Superior e o meu maior desejo é fazer com que as pessoas de fato se encontrem na enfermagem assim como eu me encontrei, reforçar que enfermagem não é uma questão de dom, mas sim de aprendizado de processos complexos e raciocínio clínico. Estar na docência em enfermagem é ressaltar que o profissional precisa entender a integralidade de cada sujeito, entender processo de saúde-doença, compreender as disciplinas básicas e específicas de enfermagem, sabendo e aplicando a assistência do profissional de enfermagem.

A escolha profissional de uma área em específico acontece em momento posterior ao processo de formação de ser enfermeiro(a). Essa especialização, vem depois e de diversas formas, de acordo com gostos e oportunidades. No entanto, a base consolidada do que é ser um profissional enfermeiro estará concretizada.

Ser professora de enfermagem não se resume em ensinar técnicas, mas sim em ensinar a construir o pensamento crítico e o raciocínio clínico. O processo de ensinar na enfermagem é muito mais que curricular, ele inclui aspectos integrais do ser humano e, por isso, minha postura como docente é de fato, conhecer o perfil dos alunos, da turma, conhecer as dificuldades e levantar potenciais dúvidas, garantindo um melhor desempenho no contexto da disciplina e do curso.

O processo de ensinar sempre vai ter como base a enfermagem, no entanto, associado a isso, deve-se incorporar toda complexidade e nuances de cada aluno. Todos os alunos que estão conosco, estão ali estão dedicando tempo e temos algo em comum com todos eles que é: gostar de enfermagem. Dessa forma, será construído em paralelo a trilha deste discente como profissional enfermeiro e, como docente, aprendemos ainda mais! O meu maior desejo é ser inspiração como fui inspirada pelos meus mestres e que a minha história tenha capacidade de acrescentar profissionalmente e pessoalmente a alguns destes alunos.

Na assistência

Durante a pandemia, trabalhei como enfermeira assistencial e sou muito grata por isso. Além disso, estive presente como docente e pesquisadora. Foram diversos desafios, inclusive pessoais, por ter pais de idade e com comorbidades. Eu tinha medo de voltar para casa, de me alimentar e usar o banheiro da minha própria casa. No entanto, mesmo com esse medo, eu tive estas mesmas pessoas orgulhosas por eu estar capacitada para atuar na linha de frente, em pacientes internados em UTI com suspeita ou confirmados com COVID-19, e isso sempre me motivou.

Atuar nesse cenário mesmo com medo, me trouxe imensa gratidão de realmente poder contribuir. O aprendizado que tive nessa época, foi imensurável e a troca de conhecimentos e experiência, além do cooperativismo com a equipe multiprofissional, foi incrível. Era de fato o enaltecido: ESTAMOS aqui por vocês. Além disso, sinto que a relação com a família se mostrou ainda mais importante para o contexto de assistência, devido à falta de acompanhantes e visitas. Nós, como profissionais, precisávamos achar formas de contatar a família e de humanizar ainda mais a assistência.

Eu espero que logo a gente ultrapasse essa pandemia, mas essas vivências e aprendizados obtidos com cada indivíduos e suas extensões, serão eternos. A COVID-19, por ser uma condição diferente, a qual não foi abordada durante nosso processo de formação profissional, nos trouxe grandes desafios teóricos e práticos, onde foram incansáveis buscas em literaturas, protocolos e conversas com profissionais de outros municípios, estados e países, para de fato aperfeiçoar nossa prática. Esse cenário enaltece muito o abordado anteriormente, de que a pesquisa, tendo a assistência como ponto de partida onde o receptor será a assistência também, é proporcionar o cuidado com as melhores evidências científicas.

Como docente, houve desafios tão grandes quanto. Houve um processo de reinvenção generalizado nas instituições de ensino e, da noite para o dia, precisávamos dominar as ferramentas online e conhecer ainda mais sobre metodologias ativas que pudessem ser utilizadas remotamente. Além disso, o convívio com os alunos, onde antes se existia uma troca de experiências e um feedback, foi extinto devido a situação mundial e o desafio do docente foi: “como manter a qualidade das aulas diante dessas condições?”; “quais ferramentas eu posso utilizar?”; “como está a aula e como eu posso melhorar”. Aos poucos conseguimos contornar esses desafios, contando uns com os outros: professores e alunos. Pessoalmente, o que eu senti mais falta foi ministrar o conteúdo olhando para os alunos na sala de aula para saber se de fato estão entendendo, das discussões que eram realizadas em sala e da troca de experiências.

A certeza que eu tenho é que a enfermagem me causa entusiasmo. Estar como aluna de doutorado e de cursos na área me entusiasma! São esses conhecimentos que me movem e que já me movimentaram para lugares que jamais eu imaginei que estaria. Estar inseridas em contextos como a assistência em saúde e como docente me motivam a ser uma profissional melhor e eu percebo que a trilha para chegar nesse caminho é o conhecimento e a pesquisa. Com a aplicação das pesquisas, podemos proporcionar a prática de enfermagem com as melhores evidências e com base na ciência. Isso sempre deve ser enaltecido e fomentado nas universidades. Meu desejo será sempre inspirar e que realmente tudo isso faça sentido para os alunos. Sou extremamente feliz por lidar com o ser humano em diversos cenários e contextos diferentes eu aprendo e sou movida por isso.

E por isso eu digo, e sempre tento reverberar isso, que nossa visão de enfermagem transcenda nosso cenário atual, que a gente sinta e busque a evolução como pessoa, profissional e para o cenário da nossa profissão. Que a gente não permaneça acomodado a cargos e situações. O indivíduo é extremamente complexo para seguirmos receitas prontas de condutas e formas de trabalho. 

Que possamos nos reinventar e nos inspirar sempre para proporcionar o melhor para nós mesmos e para nossa assistência.

Lillian Caroline Fernandes
Lillian Caroline Fernandes

Enfermeira graduada pela Universidade Estadual de Ponta Grossa.
Especialista em Unidade de Terapia Intensiva pela Universidade Positivo e Mestre em Ciências Biomédicas na área de concentração de Fisiopatologia do Sistema Nervoso Central.
Doutorado em andamento pelo Programa de Pós Graduação em Enfermagem na Saúde do Adulto (PROESA) na Universidade de São Paulo (USP).
Atuou como enfermeira assistencial no Hospital 9 de Julho na Unidade de Terapia Intensiva do Trauma.
Professora Assistente na Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein.