Ela está no buraco?

Ela está no buraco?

02 de setembro de 2021

Papai e mamãe conversam na cozinha, enquanto eu brinco no tapete de brincar da sala. Lembra? Aquele que tomou o lugar do tapete peludo que tinha aqui antes, é o que a mamãe vive dizendo, ao menos. Ela adora fazer esses jogos de palavras. Ops. Perdi o Foco. Enfim, eles estão lá na cozinha falando sobre o trabalho da mamãe enquanto cozinham aquela jantinha delícia, que eu me babo toda só de pensar. Pensa naquele brócolis gostosinho com alhinho e grão de bico. Nossa, aquele arroz com feijão e aquela batatinha assada com um verdes por cima, que só o papai sabe fazer. Ahhhh. Opa. Perdi o foco de novo. Enfim, a mamãe é cientista, né? Eu falei isso pra vocês quando a gente se conheceu. O Lins está aqui sentado no sofá jogando vídeo game. Eu não sei se ele está com a orelha antenada na conversa, que nem eu, mas acho que sim, as vezes a gente curte comentar os papos das pessoas grandes.

A mamãe falou pro papai que tem uma amiga dela que faz PhD (eu nem sei o que é, mas achei chique) que está com depressão. Ouvi a mamãe dizer que essa amiga está desanimada, desmotivada e que só sabe chorar. Também ouvi o papai dizer para a mamãe levar um pedaço de bolo de cenoura para ela amanhã. Vai que ela fica um pouco mais feliz, né? A mamãe está muito triste por ela, eu posso ver naquele olhar que só a mamãe tem quando ela se preocupa com alguém, tipo o olhar que ela faz quando o Lins pede para andar de skate na pracinha. Eu ainda não sei o que é depressão, tô tentando juntar as peças ouvindo a conversa de longe, mas as vezes é difícil, sabe? As pessoas grandes tem umas palavras muito complicadas.

- Lins, você sabe o que é depressão? Eu perguntei num sussurro baixinho, para que a mamãe não percebesse que eu estava prestando atenção na conversa dela. A mamãe detesta quando criança se mete em conversa de adulto, eu tô falando igualzinho ela sempre diz.

- Depressão...hmmmm...onde eu já ouvi isso? Lins respondeu coçando a cabeça, espremendo os olhos, num ar de sussurro, porque ele entendeu bem o que estava acontecendo, quer dizer, ele também estava escutando, e ele também sabe bem o que a mamãe pensa.

- Lice, eu tenho quase certeza que a tia Janice falou sobre isso na aula na semana passada. Eu tô aqui tentando me lembrar.

- A tia Janice? Você tá falando da professora de geografia, Lins? Aquela do cabelo encaracolado, das pernas finas e do sorriso largo?

-Isso Lice, ela falou sobre depressão, tenho certeza. Calma, deixa eu tentar lembrar... Lins ficou mais pensativo ainda, olhando pro nada, enquanto o vídeo game rolava sozinho, sem propósito ou fim, e o papai e a mamãe seguiam o papo na cozinha, sem fazer ideia do que a gente falava.

-Ahhh, lembrei! A gente estava estudando relevo, e a tia Janice disse que depressão é quando a terra em um determinado lugar fica mais baixa do que as terras ao seu redor, por causa da chuva, do vento, de um meteoro, e muitas outras coisas.

-Ai Lins, eu não sei se eu entendi.

-Lice, é tipo assim, como se fosse um buraco.

-Nossa! Tadinha da amiga da mamãe, então ela está num buraco?! Por que a mamãe vai dar bolo pra ela? Alguém tem é que tirar ela de lá.

Com toda certeza você já ouviu falar sobre depressão. Talvez você já tenha tido ou ainda tem, não é incomum e não é motivo de vergonha. Talvez tenha passado por alguns episódios depressivos, dependendo do que aconteceu em determinado momento da sua vida. Talvez você tenha um amigo ou um parente que sofre com esse transtorno. Talvez você já tenha ouvido alguma celebridade ou atleta admitir que sofre com isso. Talvez você não entenda bem como isso acontece. Talvez, mais de uma das alternativas anteriores, talvez todas. O fato é que a depressão é um transtorno sério e por muito tempo as pessoas trataram esse transtorno como algo irrelevante ou imaginário. Há quem diga que as pessoas que admitem estar sofrendo com isso estão se vitimizando ou querendo biscoito (como dizem os jovens na internet). Há quem diga que isso não passa de coisa da cabeça de quem tem. Pois bem meus caro leitores, é sim uma coisa da cabeça, lembra que eu falei que nosso cérebro é tipo um lego? E não, não é porque é um transtorno que acontece no nosso cérebro que a expressão 'coisa da cabeça' deve ser utilizada para desmerecer o sofrimento alheio. Quem aqui nunca ouviu as seguintes frases: “Que depressão que nada, isso é falta de um tanque para esfregar roupa”, “Olha, te garanto que se arrumasse um emprego isso passava rapidinho”, “Tá aí cheia de mimimi, com uma vida ótima, enquanto as crianças lá na África estão passando fome”. Eu poderia listar ao menos mais umas 9 frases que eu já ouvi. Podíamos fazer um bingo, a cada 3 frases que você já ouviu, você grita BINGO. Eu tenho certeza que você vai gritar bingo ao menos uma vez, e em muitos casos, como no meu, vai gritar bingo 4 vezes.

É um buraco, meus queridos leitores. E, bem como na geografia, é real. Não é porque você não vê que a doença não existe. É fácil compreender quando nós vemos uma perna engessada, um olho com um tampão, um braço com uns pinos de metal, ou uma pessoa conectada à máquinas num hospital. É palpável, é visível, é real. Nós temos uma dificuldade maior de entender e processar o que não é visível a olho nu. Quantas vezes você também ouviu os seguintes comentários: “Nossa, mas fulana com câncer, ela sempre pareceu tão bem” ou “Gente, ciclano teve um ataque do coração, não acredito, ele parecia ser tão saudável”. Não é porque os olhos não vêem ou contemplam que o problema não existe. No caso do câncer ou dos ataques cardíacos, as pessoas tem uma maior facilidade de aceitar e empatizar, porque são doenças, em sua maioria, no início silenciosas, porém de acesso diagnóstico mais fácil e que posteriormente podem ser visualizadas com mais objetividade do que a depressão.

É real, os nossos legos são montados de formas diferentes, lembra? Assim como as chuvas, ventos e meteoros podem causar uma depressão na terra, os traumas de infância, as perdas inesperadas e repentinas de familiares, as pressões e expectativas que são impostas no trabalho, e a restrição de vitaminas e proteínas durante a formação do cérebro, podem causar uma depressão na cabeça. O impacto dos agentes causadores é sentido de forma diferente em cada tipo de terra, ela pode ser mais arenosa, rochosa ou argilosa, e vai responder diferente à água, vento ou metal que a abate. Assim também é o cérebro de cada um de nós, com características individuais (genéticas e ambientais) que deixam o nosso solo neuronal (as conexões entre os nosso neurônios) mais arenosas, rochosas ou argilosas, por exemplo, e portanto, cada um responderá de maneira diferente às diversas experiências que nos abatem.

É preciso falar sobre o tema de maneira aberta e sem preconceito. Tira da sua cabeça a ideia distorcida de que depressão é coisa da cabeça de alguém, como se a pessoa tivesse escolha, como se o indivíduo tivesse, por livre e espontânea vontade, decidido ter um transtorno. Sim, acontece dentro da cabeça, porém afeta o corpo todo, a pessoa toda, e muitas vezes as pessoas que estão ao redor, que sofrem junto. É alarmante o número de alunos de pós-graduação e pessoas que trabalham em grandes corporativas – que exigem muitas metas e sacrifícios – sofrendo de depressão. Você deve conhecer algum amigo ou parente nessa situação. É espantoso o número de atletas que passam por isso, você deve ter acompanhado Simone Biles, a ginasta americana, que desistiu de competir em várias provas na olimpíada de Tokyo para priorizar sua saúde mental, ou Michael Phelps, o nadador americano e maior medalhista olímpico, tornar o assunto público e discursar sobre como a depressão afetou a sua carreira e a sua família. É apavorante o número de artistas e celebridades que passam por isso, pessoas que uns poderiam argumentar, têm de tudo, e que ao final de maneira triste acabam por tirar a própria vida, como Chorão e Chester Bennington, vocalistas da banda Charlie Brown Jr. e Linkin Park, respectivamente. Ou ainda, como Robin Williams e Philip Seymour Hoffman, famosos atores americanos. O buraco está entre nós, as vezes, o buraco está em nós. Ridicularizar o tamanho do buraco, ou fingir que ele não existe não vai fazer com que ele fique menor ou que desapareça. Mais empatia consigo mesmo e com o próximo, nossos buracos são diferentes, o mundo precisa de mais preenchedores de buraco e não de escavadores.

 

Maíra Assunção Bicca
Maíra Assunção Bicca

Farmacologista e Neurocientista
Pós-doutorado em Imunofarmacologia (UFSC - 2016) e em Neurobiologia (Northwestern University - 2017-2019)
Postdoctoral Fellow no Departamento de Neurocirurgia e Neurociência da Johns Hopkins University; Researcher no Neurosurgery Pain Research Institute